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“Stonehenge brasileiro” revela ligação entre povos do passado e os astros

Todas as sextas-feiras, ao vivo, a partir das 21h (pelo horário de Brasília), vai ao ar o Programa Olhar Espacial, no canal do Olhar Digital no YouTube. O episódio da última sexta-feira (21) – que você confere aqui – falou sobre como os povos ancestrais se relacionavam culturalmente com os eventos cósmicos, desde a construção de monumentos até visões acerca da vida e da natureza.

O programa contou com a presença do especialista em arqueoastronomia Caio Capua. Em um bate-papo com o apresentador Marcelo Zurita, o convidado falou sobre a cultura dos diferentes povos indígenas que conheceu e como eles enxergam o cosmos, além da sincronia entre as estruturas de pedra, as estações do ano e os ciclos da Lua.

Entrevistado conviveu com povos indígenas

Entender como populações ancestrais veem o mundo é fundamental para compreender as construções e artefatos deixados por eles. Capua conta que conviveu com o povo Guarani em 2013 e participou do primeiro Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em 2015. Essas experiências foram essenciais para sua aproximação com essas culturas.

“Lá eu pude conviver com povos indígenas do mundo inteiro. Desde os Maori, da Nova Zelândia, os Cree, do Canada, até com Maias e Astecas. Me surpreenderam demais”, explica o entrevistado. 

Caio Capua é astrofísico pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e formado em arqueoastronomia pela Universidade de Milão. (Imagem: Olhar Digital)

Zurita comenta que o eclipse é um fenômeno que foi largamente registrado pelos povos ancestrais, com versões até mesmo parecidas. Para os Vikings, a lua se tornava vermelha porque lobos a manchavam de sangue; os Maias diziam que era um jaguar; os Tupis, uma onça azul; para os chineses, um dragão atacava o astro. 

A obra do mitólogo Joseph Campbell, trazida por Capua, explica como a semelhança entre as narrativas pode explicar sua função. Segundo o entrevistado, a ideia por trás do mito é explicar as forças da natureza e o funcionamento do universo. Isso se dá não numa relação de adoração, mas de respeito as potências naturais e os movimentos astronômicos.

“O meu ponto principal, Marcelo, é o que nós podemos aprender com os povos ancestrais, não aprender sobre eles”, diz Capua.

Indígenas veem as estações como fases da vida

O momento em que o dia tem a mesma duração da noite e o Sol nasce quase exatamente a leste e se põe a oeste. É assim que Zurita define o equinócio, evento que ocorreu do dia 20 para o 21, um dia antes do programa. Após isso, ele pergunta ao entrevistado como esse acontecimento astronômico era representado na cultura de populações antigas.

As influências mais próximas que o especialista traz são a das comemorações tradicionais brasileiras, como a festa junina. Essas datas são mesclas entre o paganismo, tradições locais e eventos importantes do cristianismo que já eram celebrados na Europa.

Para os indígenas, no entanto, os equinócios vão além das festividades. “Esses povos são cosmocentricos, tem sua vida centrada no movimento da natureza e dos astros”, explica Capua. 

As quatro estações simbolizam a vida para muitas dessas populações. A primavera sendo a infância; o verão, a vida adulta; o outono, o início do envelhecimento e o inverno, os anos finais.

Povo Guarani Kaiwoa
Povo Guarani Kaiowa. (Imagem: percursodacultura / Wikimedia Commons)

Zurita comenta que o efeito das mudanças durante o ano na agricultura pode ter chamado a atenção dos povos antigos. Porém, Capua comenta que essa visão vem de uma ótica externa muito pautada na economia dos europeus e não na perspectiva do cosmos que os indígenas tinham. 

Parte dos nativos das Américas plantavam no modelo de agroflorestas, sem intenso desmatamento, mas sim com alterações continuas na mata nativa para servir às suas necessidades. Isso fazia deles caçadores, coletores e semeadores em seu estilo de busca e produção de alimentos.

“Quando os europeus chegaram aqui, eles acharam que tinham encontrado um povo primitivo e na selva. Não é verdade, eles encontraram sociedades altamente sofisticadas, que viviam na floresta porque eles criaram essas florestas, ali tinha abundancia de vida”, diz Capua.

Estruturas que interagem com os astros

Em Florianópolis, acima do Morro da Galheta, há um conjunto de pedras organizado de uma forma intrigante. Elas são um dólmen conhecido como Dólmen da Oração – um monumento em formato de mesa feito de rochas com as mais diversas funções para povos distintos. Nesse caso, ela se relaciona com os solstícios e interage com o movimento dos astros.

“Se você for lá exatamente no dia da mudança, tanto no solstício de verão, como de inverno, você vê o Sol atravessando perfeitamente o vão da mesa”, explica o especialista em arqueoastronomia.

Capua pontua que o litoral catarinense era o final do Peabiru. Esse era um trajeto feito por diferentes povos indígenas que ligava os oceanos Atlântico e Pacífico, começando no Paraná e terminando em Cusco, no Peru.

Sítio de Calçoene - Stonehenge brasileiro
O Sítio de Calçoene é hoje um destino para pesquisadores e turistas. (Carina Furlanetto / Shutterstock)

Outro monumento interessante é o Sítio de Calçoene, o “Stonehenge Brasileiro”. Localizado no interior do Amapá, o parque arqueológico é conhecido por abrigar um megálito, estrutura de grandes pedras, que os especialistas acreditam que servia como observatório astronômico, assim como o famoso Stonehenge, na Inglaterra.

Os dois exemplos têm formato circular. O entrevistado comenta que isso vem da perspectiva dos indígenas sobre o calendário, que nesse caso seria mais apropriado o termo “sincronário”, ligado não ao movimento do Sol, mas sim aos 13 ciclos lunares.

“Os indígenas trabalham com o calendário lunar, que tem 13 meses e não 12. Segue o ciclo da Lua”, explica Capua.

Desenhos misteriosos na Paraíba

A 5 km ao sul do município de Ingá, no agreste paraibano, está uma rocha cheia de marcações rupestres conhecida como Pedra do Ingá. Ela intriga pesquisadores e turistas, que já desenvolveram diversas teorias e estudos para tentar compreender quem fez e como produziu os desenhos no monumento.

Para Capua, é preciso falar com os povos indígenas da região para entender o significado do artefato e suas marcas. Sobre isso, Zurita conta uma história em que um europeu registrou o contato da população da área com a rocha.

Pedra do Ingá de frente
Arqueólogos acreditam que os desenhos na Pedra do Ingá tenham cerca de 6 mil anos. (Imagem: MTur Destinos / Wikimedia Commons)

“Quando os indígenas Cariri chegaram naquilo [as marcações na pedra], eles não quiseram se aproximar porque diziam que aquilo tinha sido feito pelos deuses, eles não sabiam quem tinha feito aquelas marcações”, diz o apresentador.

O entrevistado comenta que é comum ouvir relatos dessas populações sobre os “povos das estrelas”. Porém, ele diz que histórias envolvendo extraterrestres muita das vezes são utilizadas para inferiorizar as comunidades ancestrais e duvidar de suas capacidades técnicas.

Zurita finaliza comentando sobre a necessidade de se falar das culturas e histórias dos povos antigos e indígenas. “Acho importante a gente debater principalmente a visão dos nossos povos ancestrais e trazer sempre esse tema aqui no programa”, conclui o astrônomo.

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Equinócio: Olhar Espacial aborda a importância desse evento astronômico ao longo da história

Em todos os anos, existem dois momentos em que o dia e a noite têm quase a mesma duração: um em março e outro em setembro. Esse fenômeno é chamado de equinócio, termo que vem das palavras latinas aequus (igual) e nox (noite). 

Durante os equinócios, a Terra fica alinhada de maneira que os hemisférios Norte e Sul recebem a mesma quantidade de luz solar, o que resulta em dias e noites praticamente iguais.

Movimentos de rotação e translação da Terra ocasionam os equinócios e solstícios. Crédito: Sakurra – Shutterstock

O primeiro equinócio do ano ocorre entre 20 e 21 de março, e o segundo, entre 21 e 23 de setembro. Em 2025, o equinócio de março aconteceu na quarta-feira (20), marcando o início da primavera no Hemisfério Norte e o começo do outono no Hemisfério Sul.

Stonehenge foi construído em alinhamento com o equinócio

Desde a Antiguidade, diversas culturas celebram os equinócios com festivais e rituais. Muitas civilizações antigas construíram estruturas monumentais para observar esses momentos e marcar a passagem do tempo, além de identificar os melhores períodos para plantar e colher. Um exemplo famoso é o Stonehenge, na Inglaterra, que foi projetado para alinhar-se com os equinócios.

Mas, como nossos ancestrais percebiam esses eventos? Como podiam construir monumentos tão precisos e quais os reais objetivos? Para conversar sobre essas questões, o Programa Olhar Espacial desta sexta-feira (21) recebe Caio Montenegro de Capua, especialista em culturas ancestrais. 

O especialista em culturas ancestrais Caio Montenegro de Capua é o convidado desta sexta-feira (21) do Programa Olhar Espacial. Crédito: Arquivo Pessoal

Caio é professor de artes ancestrais, educador museal e criador do CosMuseu (Museu de Cosmovisão Ancestral), em São José, Santa Catarina. Ele tem formação em Astrofísica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e em Arqueoastronomia pela Universidade de Milão, na Itália. Além disso, participou do programa de formação de professores da NASA e tem vasta experiência com povos indígenas, incluindo estudos e vivências com o povo Guarani e outros grupos em diversos países.

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Como assistir ao Programa Olhar Espacial

Apresentado por Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – BRAMON e coordenador nacional do Asteroid Day Brasil, o programa é transmitido ao vivo, todas às sextas-feiras, às 21h (horário de Brasília), pelos canais oficiais do veículo no YouTubeFacebookInstagramX (antigo Twitter)LinkedIn e TikTok.

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Equinócio: dia e noite têm a mesma duração nesta quinta-feira (20) – entenda

Existem duas ocasiões no ano em que o dia e a noite têm quase exatamente 12 horas de duração cada: uma em março e outra em setembro – ambas chamadas de equinócio. Devido à órbita irregular da Terra em torno do Sol, essas datas variam de um ano para outro, com a primeira ocorrendo entre 20 e 21 de março, e a segunda, entre 21 e 23 de setembro.

O equinócio de março marca o primeiro dia da primavera no Hemisfério Norte e o primeiro dia do outono no Hemisfério Sul, que, este ano, será na quinta-feira (20). De acordo com o site InTheSky.org, a palavra equinócio é derivada das palavras latinas aequus (igual) e nox (noite).

Movimentos de rotação e translação da Terra ocasionam os equinócios e solstícios. Crédito: Sakurra – Shutterstock

Os equinócios ocorrem porque o eixo de rotação da Terra é inclinado em um ângulo de 23,5° em relação ao plano de sua órbita em torno do Sol. A direção do eixo de rotação da Terra permanece fixa no espaço conforme ela transita ao redor do Sol, enquanto a linha de visão do planeta para o Sol se move através das constelações.

Como resultado, às vezes o polo norte do globo é inclinado em direção ao Sol (em junho), e às vezes é inclinado para a direção oposta (em dezembro) – os chamados solstícios. Isso dá origem às estações do ano do planeta.

Nos pontos intermediários entre os solstícios (março e setembro), o Sol encontra-se diretamente sobre o equador da Terra. Em março, o Sol está viajando para o norte através do equador, e em setembro, para o sul.

Dia e noite terão quase exatamente 12 horas cada um na quinta-feira (20), dia do equinócio. Crédito: Mike Pellinni – Shutterstock

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Por que as datas dos equinócios não são fixas

A Terra orbita o Sol uma vez a cada 365 dias, 5 horas e 48,77 minutos, e este é o período durante o qual o ciclo de solstícios e equinócios, e consequentemente o início das estações da Terra, repetem-se de um ano para o outro.

Em qualquer ano que não seja bissexto, os equinócios ocorrem cerca de 5 horas e 48 minutos mais tarde de um ano para o próximo. Desse modo, as estações do ano se arrastariam cada vez mais para frente, se não fosse por um dia adicional inserido em cada quatro anos – 29 de fevereiro – que “reinicia” o ciclo.

No equinócio de março, o Sol tem uma ascensão reta de quase exatamente zero. Isso ocorre porque o ponto zero da ascensão reta é definido pela posição do centro do Sol no momento do equinócio de setembro. Em março, ele se encontra quase exatamente na direção oposta a este ponto no céu.

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