Em meio ao dilema ético envolvendo gerar imagens de IA do Studio Ghibli, o criador da produtora de filmes, Hayao Miyazaki, já demonstrou ter uma opinião bem forte sobre tal tecnologia. O posicionamento de seu filho, contudo, aparenta ser mais contido.
Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki, afirmou para a AFP que a IA poderia substituir os animadores em até dois anos, embora duvide que o público aceite uma animação totalmente gerada por IA. Apesar disso, ele reconhece o potencial da IA para revelar novos talentos.
A OpenAI, criadora do ChatGPT, recentemente lançou um gerador de imagens que pode imitar estilos de estúdios de animação amplos, mas não de artistas individuais vivos, devido a preocupações com violação de direitos autorais.
Hayao Miyazaki, fundador do Studio Ghibli, é totalmente averso ao uso de IA generativa em trabalhos artísticos – Imagem: Denis Makarenko / Shutterstock
Era do digital estaria gerando crise no mercado de animadores
Goro também discutiu as dificuldades do setor de animação no Japão, incluindo a escassez de animadores qualificados e o desinteresse da geração mais jovem pelo trabalho manual, dado o acesso fácil a conteúdos digitais.
“Hoje em dia, o mundo está cheio de oportunidades para assistir a qualquer coisa, a qualquer hora, em qualquer lugar, dificultando imaginar ganhar a vida com o ato físico de desenhar”, disse ele.
Em meio a trend das imagens do Studio Ghibli, um vídeo de 2016 de seu pai ressurgiu, onde ele mostrava seu desdém pela tecnologia.
O filho de Miyazaki ainda refletiu sobre a profundidade emocional dos filmes de seu pai e de Isao Takahata, que, mesmo sendo considerados filmes infantis, abordam temas complexos como a perda e a morte, algo difícil de ser reproduzido por gerações mais jovens.
Goro, que também é diretor e supervisou o desenvolvimento do Museu e do Parque Ghibli, destacou o impacto emocional e criativo da animação manual e da abordagem filosófica de seu pai e Takahata, algo que, segundo ele, seria difícil de replicar pelas gerações mais jovens, que não viveram a mesma experiência histórica e cultural.
O prestigiado Studio Ghibli virou o alvo de uma trend que consiste em gerar imagens de IA copiando seu estilo de animação – Imagem: Studio Ghibli/Reprodução
Se você entrou nas redes sociais nos últimos dias, provavelmente se deparou com fotos imitando a estética dos animes do Studio Ghibli. Como o Olhar Digital vem reportando, a trend começou devido ao lançamento do novo gerador de imagens da OpenAI, que permite esse tipo de criação de forma fácil e rápida (e, agora, ficou gratuito para todos os usuários).
Rapidamente, a ‘moda’ levantou polêmicas, como a geração de imagens de cunho político (por exemplo, pela Casa Branca). A principal foi o uso das obras estúdio japonês para o treinamento da IA, potencialmente ferindo direitos autorais – sem contar a desvalorização dos trabalhadores humanos.
Mas o que o Studio Ghibli pensa dessa trend?
Casa Branca se apropriou da trend para produzir imagens reforçando a ideologia do governo Trump (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
Studio Ghibli não se pronunciou – mas impede o uso das obras
O estúdio não se pronunciou sobre as imagens geradas por IA, tampouco disponibiliza e-mail de contato para imprensa.
No entanto, o site oficial do Studio Ghibli tem duas seções que podem indicar que não, a empresa não concorda nada com a trend. A primeira é a página de “Termos de Uso“, que traz um item específico sobre “Copyright”, o conjunto de leis que protege os direitos autorais.
Nele, o estúdio deixa claro que todas as obras, incluindo desde fotografias até documentos, estão protegidas por esses direitos. Veja o que diz:
NENHUMA parte de tais fotografias, imagens e documentos podem ser reproduzidos, transmitidos, difundidos, exibidos, explorados ou usados de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação, sistema de fio ou cabo, transmissão ou qualquer sistema de armazenamento e recuperação de informações, sem a permissão prévia por escrito da GHIBLI, exceto de acordo com as disposições da Lei de Direitos Autorais do Japão e quaisquer outras leis relevantes. A modificação dos materiais ou o uso de materiais para qualquer outra finalidade é uma violação dos direitos autorais da GHIBLI e outros direitos de propriedade.
Studio Ghibli
Ou seja, se a OpenAI (ou qualquer outra empresa ou pessoa) quisesse treinar seu gerador de imagens com obras do Studio Ghibli, precisaria de uma autorização por parte do estúdio.
O CEO da desenvolvedora, Sam Altman, já havia admitido anteriormente que as ferramentas podem ter sido treinadas com dados que ferem direitos autorais (um problema que não é exclusivo da OpenAI, mas da maioria das empresas de IA).
Na semana passada, quando a trend começou, a companhia rapidamente bloqueou a geração das imagens baseadas no estilo de animes da Ghibli: “Adicionamos um bloqueio que é acionado quando um usuário tenta gerar uma imagem no estilo de um artista vivo”, afirmou.
Não funcionou. Usuários conseguiram contornar o bloqueio e seguiram gerando as imagens inspiradas nos animes. O próprio Altman entrou na ‘brincadeira’ e mudou sua foto de perfil do X (antigo Twitter):
Até o CEO da OpenAI entrou na trend (Imagem: Reprodução de tela)
Tem mais. A página “Aviso de direitos autorais para o trabalho” estabelece que todas as obras utilizadas por terceiros devem ser creditadas devidamente. E os créditos estão especificados um a um no site. Veja:
A lista é longa (Imagem: Reprodução de tela)
Princípios do Studio Ghibli vão contra a IA
Apesar do estúdio não ter se pronunciado, a própria filosofia da empresa é contrária à inteligência artificial. Vamos explicar.
O Studio Ghibli nasceu em 1985, fundado pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata. Eles se conheceram em 1974, durante a produção do anime Heide, do estúdio Toei. Naquela época, os animes eram curtos, produzidos com baixo orçamento e nem sempre tinham alta qualidade de animação. Eles se uniram com um propósito em comum: produzir animações em longa-metragem de alta qualidade, de acordo com sua vontade e prazos – e assim surgiu o Studio Ghibli.
Com o tempo, a empresa ganhou notoriedade, com sucessos como Meu Amigo Totoro e O Castelo No Céu. Rapidamente, foi na contramão de outras produtoras da época: um de seus grandes diferenciais foi a valorização do trabalho humano, de seus ilustradores e animadores.
Conforme crescia, a companhia deixou de ter equipes freelances para cada filme e contratou equipes fixas, que ganhavam salários dobrados a cada ano. Inclusive, até hoje no site do estúdio é possível encontrar chamamentos para a contratação de profissionais (humanos, não máquinas).
Miyazaki, que se tornou um dos maiores diretores de animação do mundo e encabeçou o Studio Ghibli por muitos anos, sempre destacou a importância da sensibilidade humana na criação das obras, que trazem como temas questões emocionais e psicológicas. Ele é forte defensor da arte feita à mão e critica o uso da tecnologia na criação de animações.
Segundo o Studio Ghibli Brasil, isso ficou claro no processo de produção do filme Princesa Mononoke: ele supervisionou pessoalmente cada uma das 144 mil células de desenho e redesenhou alguma parte de 80 mil delas.
Ou seja, a filosofia do Studio Ghibli está na criação artesanal.
Você pode conhecer mais sobre a história do estúdio japonês e seus principais destaques aqui.
A Viagem de Chihiro, de 2001, venceu o Oscar de Melhor Animação (Imagem: Studio Ghibli/Reprodução)
Miyazaki, que se tornou o principal nome por trás do estúdio, já anunciou a aposentadoria duas vezes (e voltou atrás duas vezes, o que lhe rendeu dois Oscar de Melhor Animação). Atualmente, com 84 anos de idade, o diretor não está à frente da empresa como antes.
Quando a trend surgiu, internautas rapidamente resgataram um vídeo de um documentário de 2016, em que o Miyazaki critica o uso de inteligência artificial. Para ele, uma animação feita por IA é “um insulto à vida em si”.
O filho dele, Goro Miyazaki, que também trabalhou em alguns filmes do estúdio, se pronunciou:
Para ele, um dia a tecnologia poderá substituir animadores humanos. Em entrevista na semana passada à AFP, afirmou que “não seria surpreendente se, em dois anos, houvesse um filme feito completamente por IA”;
Mas não quer dizer que ele concorda com isso. Miyazaki acredita que a tecnologia “não substituirá a genialidade do seu pai”;
O artista destacou que a IA pode ajudar a descobrir novos talentos, principalmente em um momento em que a carreira na área de desenho pode ficar difícil. Mesmo assim, os trabalhos humanos são insubstituíveis.
Se você entrou nas redes sociais nos últimos dias, provavelmente se deparou com alguma imagem gerada por inteligência artificial imitando o estilo característico do Studio Ghibli. A trend fez sucesso e, agora, os fãs poderão rever os filmes do estúdio nos cinemas.
A distribuidora de obras asiáticas Sato Company anunciou na terça-feira (02) o Ghibli Fest, um festival com os principais sucessos da produtora japonesa. Entre os longa-metragens que serão exibidos, está o ganhador do OscarA Viagem de Chihiro.
Imagens artificiais foram geradas usando nova ferramenta da OpenAI (Imagem: xlaura/Shutterstock/Reprodução)
Filmes do Studio Ghibli voltarão aos cinemas
A distribuidora Sato Company surfou na onda da trend para anunciar o festival:
Você viu as imagens estilo Ghibli rodando por aí, certo?
Elas são lindas, nostálgicas e encantam… Mas nada se compara à emoção de viver a magia do verdadeiro Studio Ghibli na telona.
A empresa também citou que os filmes no festival são originais, licenciados e 100% verdadeiros – dando aquela cutucada nas imagens geradas por IA A programação contará com clássicos do estúdio, como A Viagem de Chihiro, Meu Amigo Totoro, O Castelo Animado, O Serviço de Entregas da Kiki e Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar.
Por enquanto, não há informações sobre quais cidades e cinemas terão exibições. Mais detalhes, incluindo datas, horários e ingressos, devem ser anunciados em breve.
Trend de inteligência artificial tomou conta das redes sociais
A trend começou na semana passada, quando a OpenAI lançou uma nova ferramenta geradora de imagens. O sucesso foi tão grande que “derreteu” os servidores da empresa e provocou instabilidades nos sistemas.
Aproveitando a popularidade, a desenvolvedora responsável pelo ChatGPT lançou o recurso de graça nesta semana. Segundo o CEO Sam Altman, o anúncio foi suficiente para atrair um milhão de usuários em apenas uma hora – e, no dia seguinte, travar a plataforma mais uma vez.
A ferramenta chamou atenção pela geração de imagens realistas, mas também pela habilidade em imitar fielmente o traço do Studio Ghibli, de animes.
Mas veio com polêmicas…
Trend levantou polêmicas com imagens de cunho político (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
Uma das polêmicas foi o uso de imagens protegidas por direitos autorais para treinar a inteligência artificial. Além de desvalorizar o trabalho de ilustradores e animadores humanos, não há informações se o Studio Ghibli liberou o uso;
O segundo problema é que autoridades globais entraram na trend, politizando as imagens. Um exemplo foi a própria Casa Branca, que usou a ferramenta para gerar imagens reforçando a ideologia do governo Trump;
Além disso, o 4o Image Gen também estaria sendo usado para gerar imagens de notas fiscais realistas, facilitando a falsificação e fraudes.
Com o avanço da arte gerada por inteligência artificial, as redes sociais foram inundadas por imagens imitadas do estilo característico do Studio Ghibli, o que gerou discussões sobre o uso de IA na animação.
Hayao Miyazaki, diretor e criador do Studio Ghibli, é famoso por sua aversão à tecnologia na arte, sempre criticou a ideia de substituir a animação tradicional por ferramentas automatizadas.
Em 2016, ao ver uma animação de um monstro gerado por IA, ele expressou seu desagrado, chamando-a de “um insulto à própria vida”, enfatizando que a animação precisa transmitir emoção humana.
Fundador do Studio Ghibli, produtor de filmes prestiagiados como “A Viagem de Chihiro”, fez críticas duras no passado com relação ao uso de IA para criar arte (Imagem: Studio Ghibli/Reprodução)
Trabalho da vida de Miyazaki vem sendo replicado pela IA
O mais novo recurso de criar imagens do ChatGPT levou a uma nova trend, que tem gerado imagens no estilo de Ghibli, provocando reações mistas.
Muitos animadores e artistas veem essas criações como uma ameaça ao trabalho artesanal, pois acreditam que a IA não consegue capturar a profundidade, a emoção e o significado cultural da animação tradicional.
Por outro lado, defensores da IA argumentam que essas ferramentas democratizam a arte e abrem novas possibilidades para criadores não convencionais.
Alguns até veem a arte gerada por IA como uma forma de homenagem ao trabalho de Miyazaki, em vez de uma mera imitação.
O debate sobre o uso de IA na arte continua a desafiar a interação entre criatividade humana e tecnologia, especialmente no campo da animação, onde o toque humano sempre foi valorizado.
Trend de gerar imagens com IA ao estilo do Studio Ghibli dominou a internet nos últimos dias (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
É inegável que os traços de Hayao Miyazaki, co-fundador do Studio Ghibli, conquistam pela delicadeza nos detalhes e pelas cores que encantam. E, nas últimas semanas, uma trend viralizou graças ao ChatGPT, que possibilitou que seus usuários pudessem transformar suas fotos em versões animadas ao nível das artes do Studio. Mas nem só de imagens fofas vive a trend, memes de sucesso também foram recriados no mesmo estilo por meio da IA.
(Imagem: Reprodução/Redes sociais)
A possibilidade aconteceu pela atualização da OpenAI para o modelo mais avançado até o momento, o GPT-4. A versão permite criar imagens mais realistas, com detalhes mais precisos.
Como usar prompt para gerar imagens por IA no estilo da animação do Studio Ghibli
Meme Nazaré Tedesco criada pelo Chatgpt (Reprodução: X/Fabrício Carraro).
Existem duas maneiras de criar suas imagens na versão Studio Ghibli. A primeira delas você utiliza uma imagem como base, e aqui entra sua criatividade, podendo usar fotos suas ou memes como já se vê por aí. Ou então pedir para IA criar uma imagem com as descrições que você escolher.
Com imagens já existentes utilize o prompt de comando: “Recrie essa imagem com as características das animações do Studio Ghibli”
Sem imagem utilize o prompt de comando: “Crie uma imagem de (descreva como você deseja a imagem) com as características das animações do Studio Ghibli.
Tempo necessário: 4 minutos
Entre no ChatGPT e clique no “+”
Para utilizar a ferramenta, faça o login de sua conta na plataforma.
Selecione a opção “Carregar do Computador”
Escolha a foto que deseja transformar nos traços do Studio Ghibli.
Insira o prompt de comando de imagens já existentes
“Recrie essa imagem com as características das animações do Studio Ghibli”
O CEO da OpenAI, Sam Altman, anunciou na noite de segunda-feira (31) no X (antigo Twitter) que a desenvolvedora liberou o gerador de imagens “4o Image Generator” de graça para todos os usuários. A liberação vem em meio à popularidade da trend do Studio Ghibli, que gera fotos com a estética de anime do estúdio japonês.
A ‘moda’ fez sucesso nas redes sociais, mas levantou polêmicas sobre o uso de imagens protegidas por direitos autorais. Isso não impediu que usuários entrassem na onda, fazendo com que o gerador ganhasse 1 milhão de acessos em apenas uma hora na tarde de segunda-feira.
OpenAI teve sucesso com o gerador 4o Image Gen (Imagem: jackpress / Shutterstock.com)
Gerador de imagens da OpenAI é liberado de graça
O 4o Image Gen é alimentado pelo GPT-4o, o mesmo do ChatGPT e outras ferramentas da OpenAI. O gerador estava disponível apenas para usuários pagantes do chatbot, mas foi disponibilizado gratuitamente para o público na noite de segunda-feira.
Na semana passada, Altman, responsável pelo anúncio da vez, já havia alertado que as máquinas da empresa estavam “derretendo” e que o gerador estaria limitado a três imagens por dia. Não está claro se esse limite se mantém agora.
A ferramenta foi lançada no início da semana passada e fez sucesso com a trend do Studio Ghibli, que transforma fotos em imagens com a estética de animes do estúdio. Apesar das polêmicas (relembraremos adiante), foram tantos acessos que o CEO revelou que as GPUs da OpenAI estavam derretendo. Ou seja, os servidores estavam sobrecarregados.
Na ocasião, Altman impôs o limite, pois a empresa trabalha para tornar o gerador mais eficiente. O Olhar Digital deu detalhes aqui.
Até a Casa Branca entrou na trend – e gerou polêmicas (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
Trend do Studio Ghibli fez sucesso, mas com polêmicas
O sucesso da trend foi tão grande que o gerador de imagens da OpenAI recebeu um milhão de usuários em apenas uma hora na segunda-feira (pelo menos foi o que disse Altman no X). Ele não revelou o número total de acessos desde o lançamento.
No entanto, a trend do Studio Ghibli levantou polêmicas:
A primeira é devido ao uso de imagens protegidas por direitos autorais para treinar a inteligência artificial. Além de desvalorizar o trabalho de ilustradores e animadores humanos, não há informações se o Studio Ghibli liberou o uso (é provável que não – e explicaremos adiante);
O segundo problema é que autoridades globais entraram na trend, politizando as imagens. Um exemplo foi a própria Casa Branca, que usou a ferramenta para gerar imagens reforçando a ideologia do governo Trump. Segundo a publicação no perfil do X, uma delas mostrava uma “traficante de fentanil e imigrante legal” sendo algemada por um policial;
Já de acordo com o TechCrunch, o 4o Image Gen também estaria sendo usado para gerar imagens de notas fiscais realistas, facilitando a falsificação e fraudes. Em contato com a empresa, um porta-voz da OpenAI respondeu que as imagens têm metadados indicando que são artificiais e que está “tomando medidas” em relação às produções que violam diretrizes institucionais.
Studio Ghibli não se pronunciou (Imagem: Studio Ghibli/Reprodução)
O que o Studio Ghibli pensa sobre o uso de suas imagens?
O estúdio japonês não se pronunciou.
No entanto, internautas rapidamente resgataram um trecho de um documentário de 2016 em que Hayao Miyazaki (um dos fundadores e principais diretores do Studio Ghibli) diz que uma animação feita por IA é “um insulto à vida em si”.
Ou seja, ele provavelmente não ficou nada feliz com a trend.
Nos últimos dias, uma trend tomou conta das redes sociais: imagens geradas pelo ChatGPT imitando a estética das animações do Studio Ghibli, de animes. A tendência gerou polêmicas, que vão desde os direitos autorais do traço por trás das imagens até a adesão por parte da Casa Branca. O Olhar Digital reportou o caso completo neste link.
Você já deve ter ouvido falar do Studio Ghibli. O estúdio japonês é responsável por filmes famosos, como A Viagem de Chihiro (2001) e o recente O Menino e a Garça (2023), ambos vencedores do Oscar de Melhor Animação.
Conheça a história da produtora (e o que o cofundador Hayao Miyazaki pensa da trend do ChatGPT).
Imagens de cunho político usando estética do Studio Ghibli geraram polêmicas (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
Studio Ghibli mudou a forma como animes eram feitos
Os diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata se conheceram em 1974, durante a produção do anime Heide, do estúdio Toei. Naquela época, os animes eram curtos, produzidos com baixo orçamento e nem sempre tinham alta qualidade de animação.
Durante os anos, a dupla se uniu com um desejo em comum: produzir animações em longa-metragem de alta qualidade, de acordo com sua vontade e prazos, sem imposições de outros estúdios.
Em 1984, eles deram o pontapé inicial nessa proposta com o filme Nausicaä do Vale do Vento, feito em parceria com o próprio estúdio Toei e com o produtor Tokuma Shokuten.
A obra foi um sucesso e, em 1985, Hayao Miyazaki e Isao Takahata se uniram a Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma para fundar o Studio Ghibli. O nome foi inspirado no motor italiano de aviões Caproni Ca. 309 Ghibli, já que o pai de Miyazaki trabalhava na construção de aeronaves.
No ano seguinte, eles lançaram seu primeiro filme sob o novo selo, O Castelo no Céu – que também foi um sucesso de crítica e bilheteria. Segundo o site da Academia Brasileira de Arte, foram mais de 775 mil espectadores só no cinema.
Totoro, do filme Meu Amigo Totoro, se tornou o logotipo da empresa (Crédito: Studio Ghibli, Toho/divulgação)
Metodologia de trabalho era diferenciada
Rapidamente, o Studio Ghibli foi na contramão de outros estúdios de animes da época. Um dos diferenciais é que, logo depois de O Castelo no Céu, Miyazaki e Takahata produziram duas animações separadamente, dando origem a duas das maiores obras do estúdio: Meu Amigo Totoro e O Túmulo dos Vagalumes, respectivamente.
A abordagem ousada deu vasão à criatividade e qualidade dos produtores, refletindo positivamente no desempenho comercial da empresa. Apenas um ano depois, o filme Serviço de Entregas Kiki levou 2,64 milhões de espectadores aos cinemas e se tornou a obra mais vista daquele ano.
Isso levou a uma nova metodologia de trabalho:
Até então, o Studio Ghibli tinha uma equipe temporária para cada produção, numa espécie de sistema freelance. Após o sucesso estrondoso, os animadores foram contratados (algo incomum naquele período) e recebiam salários que dobravam todos os anos. Inclusive, homens e mulheres ganhavam o mesmo;
O diretor-executivo do estúdio na época, Toru Hara, descreveu a metodologia de trabalho como “3As”: alto custo, alto risco e alto retorno;
Basicamente, a empresa trabalhava rapidamente com altos orçamentos (consequentemente, alto risco), mas tinha retorno;
Na prática, o Studio Ghibli sempre estava trabalhando. Quando um filme era lançado, outro já estava em produção.
Hayao Miyazaki, cofundador do estúdio, não se pronunciou sobre a trend… mas provavelmente desaprovaria (Foto: Denis Makarenko/Shutterstock)
Sucesso contínuo do Studio Ghibli – e caminhada até o Oscar
O crescimento da empresa levou Miyazaki a abrir uma nova sede, para comportar o tamanho da nova equipe. Apesar de discordâncias internas (que levaram Toru Hara a sair da parceria), isso levou à evolução no faturamento do estúdio, que agora também cuidava da própria distribuição e divulgação dos filmes. Ou seja, o Studio Ghibli trabalhava de ponta a ponta, desde a concepção e produção até a entrega ao espectador.
Esse faturamento se deu apenas com o desempenho dos filmes, sem vender produtos associados, como era comum na época.
O reconhecimento internacional veio em 1997, com Princesa Mononoke, que ganhou distribuição da Disney no Ocidente. Naquele período, a influência do estúdio japonês era tão grande que a produtora americana queria fazer cortes no filme para atrair o público infantil, mas Miyazaki vetou as mudanças… e a Disney aceitou.
Já em 2001, A Viagem de Chihiro, o grande clássico do Studio Ghibli, foi indicado ao Oscar, sendo a primeira animação japonesa a vencer o prêmio de Melhor Animação. Recentemente, O Menino e a Garça, que marcou o retorno da aposentadoria de Hayao Miyazaki, repetiu o feito.
O diretor, inclusive, anunciou a aposentadoria pela primeira vez em 1998, mas voltou a ativa com A Viagem de Chihiro. Depois, em 2013, mas também voltou. Atualmente, apenas ele e Suzuki trabalham ativamente no Studio Ghibli. Takahata faleceu em 2018.
A trend do Studio Ghbili viralizou, mas pode ter certeza que Hayao Miyazaki não ficou nada feliz com isso.
Ele não chegou a se pronunciar, mas, conforme as imagens viralizavam, internautas resgataram um trecho de um documentário de 2016, em que ele diz que uma animação feita por IA é “um insulto à vida em si”.
Imagens geradas pelo ChatGPT no estilo das animações do Studio Ghibli, co-fundado por Hayao Miyazaki, tomaram conta das redes sociais nesta semana. Tanta gente gerou imagens que “nossas GPUs estão derretendo“, postou o CEO da OpenAI, Sam Altman, no X. E a trend despertou polêmicas.
São camadas e camadas de polêmicas. Pipocaram discussões sobre como o uso da IA para imitar o estilo Ghibli viola direitos autorais e desvaloriza o trabalho humano, por exemplo. Até aí, tudo certo.
Geração de imagens estilo Ghibli no ChatGPT e postura do governo Trump compartilham mentalidade, diz repórter
Primeiro, a página postou fotos de uma detenta chorando. Segundo a postagem, ela era traficante de fentanil e imigrante legal. Depois, acrescentou uma imagem no estilo Ghibli – muito provavelmente gerada no ChatGPT – na qual um policial carrancudo algemava a mulher aos prantos.
Postagem da página da Casa Branca aproveitando a trend da geração de imagens no estilo do Studio Ghibli no ChatGPT (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
“Ambos [filtro Ghibli e postura da Casa Branca nas redes] são, por mais contraintuitivo que pareça, produto de uma mentalidade que trata decência básica como fraqueza e a insensibilidade como a prerrogativa do poder“, argumenta a repórter do Verge.
Para ela, “IA Ghibli e Trump se encaixam de maneira bizarra”. No geral, mídia gerada por IA é a estética principal do movimento Maga (sigla em inglês de “Make America Great Again“), capitaneado pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Questões culturais à parte, essa estética é produto dos vínculos entre Trump e a indústria de IA, segundo Robertson. Por exemplo, o bilionário Elon Musk, grande conselheiro de Trump, tem uma empresa de IA (a xAI). Além disso, o presidente nomeou David Sacks como “czar da IA” e canetou um projetaço para o setor (o Stargate, do qual a OpenAI faz parte).
Filtro Ghibli e a indiferença da era Trump
Trend das imagens estilo Studio Ghibli geradas pelo ChatGPT é fofa, mas tem camadas sombrias (Imagem: Reprodução/Redes sociais)
A repórter aponta algo mais sombrio. “Em sua essência, [o filtro Ghibli] é um eco menor da total indiferença da era Trump para com os outros seres humanos.”
Usar o trabalho do Studio Ghibli para publicidade é um movimento de poder, explica Brian Merchant em sua newsletter Blood in the Machine. Isso diz aos artistas cujas criações fazem o ChatGPT funcionar: “Nós pegamos o que queremos, e vamos contar a todos que estamos fazendo isso. Você consente? Não nos importamos.”